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Marcação a mercado no Tesouro Direto: como funciona e quando ganha (ou perde)

Como funciona a marcação a mercado no Tesouro Direto, quando dá ganho e quando dá prejuízo, framework por horizonte. Por Rodrigo Longue, RT CVM.

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Resumo executivo

  • Resposta direta: marcação a mercado (ajuste diário do preço do seu título com base no que ele valeria se você vendesse hoje) é o que faz o saldo do Tesouro Direto subir e descer entre a compra e o vencimento.
  • Mecânica: Selic em queda tende a empurrar prefixados e IPCA+ para cima; Selic em alta tende a derrubar.
  • Tesouro Selic pós-fixado (rentabilidade que acompanha a taxa Selic do dia) virtualmente não sofre marcação. É o título sem volatilidade visível.
  • Duration é bússola: quanto mais longo o vencimento, mais o preço oscila com cada décimo de variação da curva.
  • Decisão: se carregar até o vencimento, você recebe a taxa contratada. Marcação só vira ganho (ou prejuízo) realizado se vender antes.

Você abriu o app da corretora, viu seu Tesouro IPCA+ no vermelho e travou. Não houve calote. Não houve mudança no juro real contratado. O que mudou foi o preço que o mercado paga hoje pelo seu título caso você decida vendê-lo agora. Isso é marcação a mercado.

Ela é a regra do jogo do Tesouro Direto desde 2002. O ponto é entender quando trabalha a favor e quando trabalha contra, para você decidir com critério, e não com adrenalina. Marcação a mercado pode dar ganho. Marcação a mercado pode dar prejuízo. Os dois acontecem com frequência, e ambos são previsíveis dentro de um framework simples.

Resposta direta: o que é marcação a mercado em uma frase

Marcação a mercado é o ajuste diário do preço do seu título com base no valor que ele teria se fosse negociado hoje, considerando a curva de juros (gráfico que mostra qual juro o mercado exige para cada prazo de vencimento) atual. Quem segura o título até o vencimento (data em que o título paga o valor de face acordado na emissão) recebe a taxa contratada na compra, conforme o regulamento oficial publicado pelo Tesouro Direto. Quem vende antes recebe o valor de mercado vigente, que pode estar acima ou abaixo do preço de compra.

Cenário de Selic Tesouro Prefixado Tesouro IPCA+ Tesouro Selic
Selic em queda Preço tende a subir Preço tende a subir Praticamente neutro
Selic em alta Preço tende a cair Preço tende a cair Praticamente neutro
Selic estável Preço caminha com o tempo até o vencimento Preço caminha com o IPCA + juro real Acompanha a Selic do dia

A tabela acima vale para a tendência geral. O movimento exato depende do vencimento, da taxa contratada na compra e da forma da curva no dia.

A mecânica matemática real (sem fórmula assustadora)

O Tesouro Direto é programa do Tesouro Nacional em parceria com a B3, criado em 2002. As características atuais dos títulos negociados (LTN, LFT e NTN) são definidas pelo Decreto Nº 9.292, de 23 de fevereiro de 2018, que estabelece as características dos títulos da Dívida Pública Mobiliária Federal e revogou o Decreto Nº 3.859/2001 anteriormente vigente. Em renda fixa, o preço atual do seu título é o valor presente (preço hoje de um fluxo futuro, descontado por uma taxa de juros) desse fluxo descontado pela curva de juros vigente. Se a curva sobe, a taxa de desconto sobe e o valor presente cai. Se a curva cai, o valor presente sobe. Os três grupos descritos pelo Tesouro Direto (prefixado, IPCA+ e Selic) reagem cada um a uma fatia diferente dessa curva. Prefixado responde à curva nominal. IPCA+ responde aos juros reais. Selic acompanha o juro de curto prazo.

Matriz Selic Tesouro — marcacao-a-mercado-tesouro-direto

Tesouro Prefixado: quando ganha e quando perde

O Tesouro Prefixado (título cuja taxa de juros é definida no momento da compra, garantindo retorno conhecido se carregado até o vencimento) trava uma taxa fixa no dia da compra. Suponha que você comprou um prefixado a 13% ao ano, vencimento daqui a cinco anos, pagando R$ 1.000 hoje. Se a curva para esse prazo cai de 13% para 10%, o mercado passa a aceitar taxas menores para o mesmo vencimento. Sua taxa contratada virou prêmio. Outros investidores pagariam acima de R$ 1.000 hoje pelo direito de receber 13% durante o período. O valor presente do seu título sobe.

Quanto sobe? Depende do prazo restante. Para cinco anos de vencimento, uma queda de 3 pontos percentuais na curva pode mover o preço em algo como 12% a 15%. Para 15 anos, o movimento passa de 35%. Exemplo didático, valores reais variam por título, vencimento, taxa contratada e momento exato da curva.

O reverso é simétrico. Compra a 11%, Selic sobe para 14%, sua taxa virou desvantagem. O preço do título cai e a marcação entra no vermelho. Vender ali dá prejuízo nominal. Carregar até o vencimento devolve os 11% ao ano contratados, mas o saldo do extrato vai oscilar bastante no caminho.

Tesouro IPCA+: mecânica idêntica, com juro real no meio

O Tesouro IPCA+ (título híbrido que paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa de juros real fixada na compra) tem dois componentes. O IPCA acumulado entre a compra e a venda compensa a inflação realizada. O juro real (taxa de juros descontada da inflação) é o que oscila com a curva. A marcação do IPCA+ depende essencialmente do movimento dessa parcela real.

Planilha Taxa Preco — marcacao-a-mercado-tesouro-direto

Se a curva de juros reais fecha (cai), o preço do seu IPCA+ sobe. Se abre (sobe), cai. Em ciclos de queda, o IPCA+ longo se beneficia de duas formas: o IPCA segue corrigindo o capital, e o juro real comprado a uma taxa antiga vale mais que o corrente. Esse foi um dos motores do retorno dos IPCA+ longos durante o ciclo iniciado em março/2026, com Selic reduzida pelo Copom para 14,5% ao ano em abril (Banco Central).

O risco é simétrico. Se o juro real abre porque o mercado pede mais prêmio (cenário fiscal piorando, expectativa de inflação subindo), o IPCA+ longo cai mesmo com IPCA acumulado positivo. A marcação a mercado pode dar prejuízo nominal de dois dígitos em poucos meses no IPCA+ longo. Isso aconteceu várias vezes no Brasil entre 2013 e 2023. Não é evento raro.

Tesouro Selic: virtualmente sem marcação a mercado

O Tesouro Selic (título pós-fixado cujo retorno acompanha a taxa Selic do dia) é o caso de exceção. A LFT é estruturada para acompanhar a Selic diária, e o seu preço presente acompanha a remuneração corrente. Resultado prático: o valor de mercado caminha colado ao valor que você recebe se vender hoje, com pequenos ágios ou deságios em períodos de estresse de liquidez. Por isso, o Tesouro Selic é considerado o título sem volatilidade visível, conforme análise do Bora Investir B3.

Implicações práticas:

  • Tesouro Selic é o lugar natural da reserva de emergência. Vende em qualquer dia útil sem risco material de perda nominal por marcação.
  • Quem busca proteção contra ciclo de alta da Selic tem no Tesouro Selic uma trava direta.
  • Quem busca ganho com ciclo de queda faz o caminho oposto: troca parte do Tesouro Selic por Prefixado ou IPCA+ de prazo compatível com o horizonte.

A escolha entre Selic, Prefixado e IPCA+ não é "qual é melhor". É qual encaixa no seu horizonte e no seu perfil, dentro da análise de adequação prevista pela Resolução CVM Nº 30/2021.

Duration: sua bússola operacional

Duration (medida de sensibilidade do preço do título a uma variação de 1 ponto percentual na taxa de juros) é o conceito que falta na maioria das discussões de marcação a mercado. A regra prática cabe em uma frase: quanto maior a duration, maior o impacto de cada décimo de variação da curva no preço do seu título.

Duration Vencimento — marcacao-a-mercado-tesouro-direto

Sob a mesma queda de 1 ponto percentual na curva:

Vencimento Duration aproximada Impacto típico no preço
Prefixado curto (até 2 anos) ~1,5 a 2 anos Preço varia ~1% a 2%
Prefixado médio (3 a 6 anos) ~3 a 5 anos Preço varia ~3% a 5%
Prefixado longo (10+ anos) ~7 a 10 anos Preço varia ~7% a 10%

Números ilustrativos. O cálculo exato depende do título, da taxa contratada, da forma da curva e da convexidade. O que importa é a ordem de grandeza: vencimento longo amplia ganho e amplia prejuízo. Quem escolhe IPCA+ longo buscando "rentabilidade boa" sem entender duration se surpreende com a oscilação no extrato. Quem escolhe IPCA+ curto opera um trade muito mais comportado. Trato a relação entre tolerância a oscilação e janelas de prazo em Perfil de investidor: conservador, moderado e arrojado.

3 cenários onde marcação a mercado é amigável

A marcação a mercado vira amiga em três situações específicas:

  1. Ciclo de cortes da Selic em curso. Você comprou prefixado ou IPCA+ antes ou no início do ciclo, e a curva fecha gradualmente. Preço sobe. Foi o setup do ciclo iniciado em março/2026, detalhado em Como reposicionar a carteira em queda da Selic.
  2. Rebalanceamento ativo dentro do perfil. Você definiu fatias-alvo por classe e usa janelas de marcação favorável para vender uma parte que avançou demais e recompor em outra classe, sem mexer no patrimônio total. Quem opera disciplinado captura ganhos parciais sem virar especulador.
  3. Janela tática planejada de antemão. Você comprou prefixado longo com horizonte de 3 a 5 anos sabendo que existia ciclo de cortes em formação. Quando o ciclo se materializa, sai antes do vencimento porque o gatilho objetivo foi atingido. Vender com critério não é o mesmo que vender por euforia.

Em nenhum dos três o investidor vende porque "está no positivo". Vende porque tinha plano, e o plano teve gatilho.

3 cenários onde marcação a mercado é hostil

A marcação a mercado vira inimiga, também, em três situações que se repetem:

Decisao Vencimento — marcacao-a-mercado-tesouro-direto
  1. Vender antes do vencimento para cobrir despesa imprevista. Comprou IPCA+ longo achando que era reserva. Surge gasto inesperado. Vende em momento ruim da curva e realiza prejuízo. É o erro número um da renda fixa longa: virar liquidez de emergência sem ter sido projetada como tal.
  2. Ciclo de alta da Selic com prefixado e IPCA+ longos na carteira. A curva abre, o preço cai, o extrato vermelho gera ansiedade. Vender no fundo realiza prejuízo. Carregar até o vencimento ainda devolve a taxa contratada, mas exige cabeça fria.
  3. Inflação acelerando antes do reset do IPCA+ no juro real. O IPCA acumulado corrige o capital, mas se a expectativa de inflação dispara antes da próxima precificação, o juro real abre e derruba o preço. Vender nesse momento, mesmo com IPCA realizado favorável, gera prejuízo nominal. Marcação a mercado pode dar prejuízo, e este é um dos cenários onde mais surpreende.

Os três têm uma coisa em comum: a venda acontece porque o investidor precisa do dinheiro agora, não porque o plano mandou vender.

A pegadinha "vermelho no positivo"

Um caso particular confunde muito investidor: o título está positivo se carregado até o vencimento, mas aparece negativo na coluna "rentabilidade na venda antecipada". É normal. A rentabilidade contratada é a do papel até o vencimento. A rentabilidade na venda antecipada é o quanto você recebe se vender hoje. Quando a curva está pior do que estava no dia da compra, a venda antecipada fica pior do que o caminho do vencimento. O título não deu prejuízo no sentido contratual. O que muda é o preço de saída, agora.

A regra geral de quem investe em prefixado e IPCA+ é direta: comprar apenas com prazos compatíveis com o horizonte real do objetivo. Reserva de emergência fica em Tesouro Selic. Janela de 4 a 10 anos comporta IPCA+ médio. Janela de 10+ anos comporta IPCA+ longo, com cabeça preparada para oscilação.

Carregar até o vencimento: quando isso resolve tudo

A regra final é a mais simples e a menos popular: se você carregar o título até o vencimento, a marcação a mercado deixa de ser problema. O Tesouro Nacional paga o valor de face na data combinada, e o retorno realizado é a taxa contratada na compra. O extrato oscila no caminho, mas o ponto final está garantido por contrato, conforme as regras do Tesouro Direto.

Por que essa regra é antipopular? Porque contraria o impulso de "vender pra realizar o ganho" sempre que a marcação fica positiva. Vender por impulso ignora três coisas: custo de oportunidade do dinheiro depois (aplicar onde, com garantia de manter taxa?), imposto pago na venda agora, risco de errar o timing do reinvestimento.

A função técnica do consultor de valores mobiliários, conforme a Resolução CVM Nº 19/2021, inclui orientar o investidor sobre o momento adequado para vender, manter ou rebalancear posições. Vender prefixado ou IPCA+ por marcação positiva precisa de justificativa objetiva, dentro de um plano. Sem plano, segurar até o vencimento é quase sempre a melhor escolha. O papel do consultor é dizer quando vale abrir uma exceção, dentro do método de consultoria de investimentos independente, como trato em Consultoria de investimentos vale a pena?.

Perguntas frequentes

Meu Tesouro IPCA+ apareceu no vermelho. Eu perdi dinheiro?

Ainda não. O número vermelho é o que você receberia vendendo hoje. Carregando até o vencimento, recebe a taxa contratada na compra. A perda só vira real se vender antes.

Posso ganhar muito vendendo antes do vencimento?

Pode, em ciclos onde a curva cai bastante depois da sua compra. Quanto mais longo o vencimento, maior o ganho potencial e maior o prejuízo potencial. Marcação a mercado pode dar ganho e pode dar prejuízo. Quem vende precisa de critério, não de palpite.

Tesouro Selic também tem marcação a mercado?

Tem, mas o efeito é mínimo. A LFT é estruturada para acompanhar a Selic do dia, então o preço de mercado caminha colado à remuneração corrente. Em condições normais, vender Tesouro Selic devolve algo muito próximo do aplicado mais o rendimento até a data.

A taxa que contratei sempre vale?

A taxa contratada vale para o caminho do vencimento. Se segurar o título até a data combinada, recebe a remuneração acertada no dia da compra. Se vender antes, recebe o valor de mercado, que pode ser maior ou menor.

Vale a pena comprar Tesouro IPCA+ longo agora?

Depende de horizonte, perfil e composição da carteira atual. Tesouro IPCA+ longo pode oscilar bastante no caminho. Para horizonte real de 10+ anos e perfil compatível, é peça frequente. Para reserva de curto prazo, não é. Análise individual exige avaliação de suitability conforme a Resolução CVM Nº 30/2021.

Quem decide o preço de venda antecipada do Tesouro Direto?

O preço é calculado pelo Tesouro Nacional com base na curva de juros do mercado secundário. A B3 opera a plataforma. Das 9h30 às 18h em dias úteis, os preços são atualizados em tempo real e as ordens executadas ao valor vigente.

Próximo passo

Marcação a mercado é uma das mecânicas mais simples e mais incompreendidas da renda fixa brasileira. Pode dar ganho. Pode dar prejuízo. A diferença entre os dois resultados não é sorte. É planejamento de horizonte, leitura de duration e disciplina para carregar até o vencimento quando o plano original mandava carregar.

Se você tem prefixados ou IPCA+ na carteira e quer entender se a alocação atual está compatível com seu horizonte e perfil, agende uma conversa com a Dinai. Trabalhamos sob a Resolução CVM Nº 19/2021, com remuneração paga pelo cliente, sem comissão de produto, sem viés de venda.